Quando a reconstrução do ligamento cruzado anterior (LCA) é indicada, uma das decisões é escolher o tecido que substituirá o ligamento rompido. Patelar e flexores são opções consolidadas, mas têm diferenças que importam no planejamento da cirurgia e da recuperação.
A pergunta útil é: qual enxerto oferece o equilíbrio mais adequado para este joelho, este esporte e esta rotina? A resposta exige conversar sobre benefícios, limitações e expectativas — antes de entrar no centro cirúrgico.
01 / ORIGEM
Dois enxertos, dois locais de retirada.
Nos autoenxertos, o tecido vem do próprio paciente. Além do patelar e dos flexores, o tendão do quadríceps também é uma alternativa. Já o aloenxerto vem de um doador humano, por meio de banco de tecidos. [1]
Tendão patelar
Retira-se uma faixa central do tendão que liga a patela à tíbia, com um pequeno bloco ósseo em cada extremidade. A sigla BPTB vem de bone–patellar tendon–bone: osso–tendão patelar–osso.
Tendões flexores
Utiliza-se o semitendíneo e, quando necessário, o grácil. Os tendões são dobrados para formar um enxerto com múltiplos feixes. A configuração e o diâmetro variam conforme a técnica e o tecido disponível. [1]
02 / BIOLOGIA
A diferença vai além da força inicial.
No patelar, os blocos ósseos permitem integração osso a osso nos túneis. Nos flexores, ocorre integração tendão–osso. A consolidação óssea tende a ser mais rápida e previsível, mas isso não significa que todo o enxerto esteja maduro.
A fixação inicial também importa: parafusos, botões e outras combinações têm características próprias. Não é correto afirmar que toda fixação patelar será mais rígida que qualquer fixação dos flexores; o comportamento depende do conjunto enxerto–implante–osso. [1]
03 / COMPARAÇÃO
O que muda para o paciente?
O sítio doador é o local de onde o tecido é retirado. Ele ajuda a explicar parte das diferenças de sintomas e recuperação muscular. [2]
| Aspecto | Patelar | Flexores |
|---|---|---|
| Integração no túnel | Osso a osso nas extremidades. | Tendão ao osso. |
| Força muscular | Maior atenção à recuperação do quadríceps. | Maior atenção à flexão profunda e à rotação interna. |
| Dor e rotina | Mais desconforto anterior e ao ajoelhar. | Em geral, menos desconforto ao ajoelhar. |
| Riscos da retirada | Fratura da patela é uma complicação rara. | Lesão de ramos do nervo safeno pode causar perda de sensibilidade. |
| Situações que pesam | Pode ser favorecido em determinados perfis de alto risco. | Pode ser considerado quando preservar o mecanismo extensor é uma prioridade. |
Os déficits não são iguais em todas as pessoas. A extensão da retirada, condições anteriores e reabilitação influenciam a evolução. Nos flexores, a alteração sensitiva pode atingir áreas da frente do joelho ou da face interna da perna. [2]
Os flexores também participam do controle dinâmico do joelho. Reduzir sua força pode afetar essa contribuição, mas não equivale a afirmar que todo paciente terá instabilidade. Da mesma forma, preservar os flexores não torna o patelar neutro para a função: a força do quadríceps também participa da aceleração e da frenagem. [10]
Alargamento dos túneis e cistos podem ocorrer após a reconstrução. São fenômenos multifatoriais, influenciados pela técnica e pelos materiais; não devem ser apresentados como consequência inevitável dos flexores nem como sinônimo de falha clínica. [2]
04 / EVIDÊNCIA
Resultados semelhantes na média. Diferenças em alguns perfis.
Uma revisão de 2025, com 4.810 atletas e seguimento médio de 35,7 meses, não encontrou diferença estatisticamente significativa entre patelar e flexores nas taxas de retorno ao esporte, retorno ao nível anterior ou re-ruptura. Isso não significa que os enxertos sejam intercambiáveis em qualquer situação. [3]
Outra metanálise, com 47.613 pacientes, identificou uma pequena vantagem do patelar quanto à falha. Estudos diferem em população, técnica, acompanhamento e definição de desfecho; por isso, seus números precisam ser interpretados em conjunto. [4]
UM SUBGRUPO ESPECÍFICO DE ALTO RISCO
Re-ruptura em dois anos, em um subgrupo de 73 pacientes que reuniam três fatores: idade de até 20 anos, inclinação posterior do platô tibial de pelo menos 12° e esporte com giro.
Coorte de Goto et al., 2026. É um estudo observacional de um grupo selecionado; estes percentuais não representam o risco de todo paciente. [5]
Em pacientes com hipermobilidade generalizada que voltaram ao esporte, outro estudo encontrou maior ocorrência de uma segunda lesão do LCA com flexores. O desfecho incluía também o joelho oposto: não era apenas re-ruptura do enxerto ou cirurgia de revisão. [6]
Para a rotina, um dado diferente pode pesar mais. No registro da Nova Zelândia, dificuldade grave ou extrema para ajoelhar aos dois anos foi mais frequente com patelar: 21,3%, contra 9,4% com flexores. Esse resultado não equivale a dor incapacitante geral. [7]
05 / DECISÃO
O joelho e a vida fora do consultório entram na escolha.
A avaliação combina idade, maturidade óssea, esporte, demanda funcional, frouxidão ligamentar, hiperextensão, inclinação do platô tibial, lesões associadas e histórico de cirurgias. O exame físico e os objetivos do paciente completam a leitura das imagens. [1] [8]
- Esporte: um jovem que pratica mudanças frequentes de direção tem prioridades diferentes de quem deseja caminhar e fazer musculação.
- Trabalho e rotina: ajoelhar diariamente torna o desconforto anterior especialmente relevante.
- Recuperação: déficits musculares prévios, acesso à fisioterapia e disponibilidade para o tratamento precisam ser discutidos.
Em quem ainda cresce, a técnica deve respeitar as placas de crescimento. Enxertos com blocos ósseos atravessando essas regiões são evitados. O planejamento pediátrico não se resume a escolher entre duas opções de adultos. [8]
E o quadríceps e o aloenxerto?
O tendão do quadríceps também pode ser utilizado na primeira reconstrução; não fica reservado à revisão. O aloenxerto evita a retirada de tecido do próprio paciente, mas exige seleção criteriosa. A AAOS favorece autoenxertos especialmente em jovens e pessoas ativas, pelo risco de falha. [11] [8]

06 / RECUPERAÇÃO
O enxerto é uma parte do tratamento.
A reabilitação acompanha dor, inchaço, mobilidade, força e qualidade do movimento. Lesões de menisco ou cartilagem tratadas junto com o LCA também podem modificar a progressão. A escolha do tendão, sozinha, não permite prever o prazo de recuperação. [9]
Voltar a correr, treinar e competir são etapas diferentes. A liberação considera critérios clínicos e funcionais, exposição gradual às exigências do esporte e prontidão psicológica. Uma sensação de segurança precoce não substitui essa avaliação. [9]
07 / DÚVIDAS FREQUENTES
Perguntas para levar à consulta.
Quem joga futebol deve escolher o patelar?
Não automaticamente. Idade, nível de exposição, anatomia, lesões associadas e demandas musculares fazem parte da escolha. Em determinados perfis de alto risco, o patelar pode ser favorecido; isso não cria uma regra para todo jogador. [5] [8]
Com patelar, posso voltar antes ao esporte?
A integração óssea não basta para liberar o retorno. É necessário recuperar função e cumprir critérios de reabilitação, independentemente do enxerto. [9]
A perda de força com flexores é permanente?
Pode persistir em alguns movimentos, especialmente na flexão profunda, mas a magnitude e a evolução variam. O acompanhamento deve medir o déficit e orientar a recuperação, sem presumir uma limitação definitiva para todos. [2] [10]
O que vale perguntar antes da cirurgia?
Por que esse enxerto foi indicado para mim? Quais limitações são mais relevantes para minha rotina? Há outra opção adequada? Como serão acompanhados a força, a estabilidade e o retorno às atividades?
FONTES
Referências para aprofundar.
- Runer A et al. Current trends in graft choice for anterior cruciate ligament reconstruction – part I: anatomy, biomechanics, graft incorporation and fixation. J Exp Orthop. 2023;10:37. Ler artigo.
- Runer A et al. Current trends in graft choice for primary anterior cruciate ligament reconstruction – part II: In-vivo kinematics, patient reported outcomes, re-rupture rates, strength recovery, return to sports and complications. J Exp Orthop. 2023;10:40. Ler artigo.
- Connors JP et al. Return to Sport and Graft Failure Rates After Primary Anterior Cruciate Ligament Reconstruction With a Bone-Patellar Tendon-Bone Versus Hamstring Tendon Autograft: A Systematic Review and Meta-analysis. Am J Sports Med. 2025;53:1996–2006. PubMed.
- Samuelsen BT et al. Hamstring Autograft versus Patellar Tendon Autograft for ACL Reconstruction: Is There a Difference in Graft Failure Rate? A Meta-analysis of 47,613 Patients. Clin Orthop Relat Res. 2017;475:2459–2468. Texto completo.
- Goto K et al. Comparison of patellar tendon and hamstring grafts in ACL reconstruction: patellar tendon shows lower re-rupture rates in high-risk groups and comparable patient-reported outcomes in lower-risk patients. Arch Orthop Trauma Surg. 2026;146:51. Ler artigo.
- Lindskog J et al. Primary Anterior Cruciate Ligament Reconstruction Performed With Hamstring Tendon Autograft Leads to an Over 4 Times Greater Rate of Second Anterior Cruciate Ligament Rupture After Return to Sport in Patients With Generalized Joint Hypermobility Compared With Bone–Patellar Tendon–Bone Autograft. Arthroscopy. 2025. PubMed.
- Rahardja R et al. Comparison of Knee Pain and Difficulty With Kneeling Between Patellar Tendon and Hamstring Tendon Autografts After Anterior Cruciate Ligament Reconstruction: A Study From the New Zealand ACL Registry. Am J Sports Med. 2023. PubMed.
- American Academy of Orthopaedic Surgeons. Management of Anterior Cruciate Ligament Injuries: Clinical Practice Guideline. 2022. Resumo oficial.
- Kotsifaki R et al. Aspetar clinical practice guideline on rehabilitation after anterior cruciate ligament reconstruction. Br J Sports Med. 2023;57:500–514. Diretriz.
- Cristiani R et al. Autograft type affects muscle strength and hop performance after ACL reconstruction. A randomised controlled trial comparing patellar tendon and hamstring tendon autografts with standard or accelerated rehabilitation. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2021. PubMed.
- Horstmann H et al. Quadriceps and hamstring tendon autografts in ACL reconstruction yield comparably good results in a prospective, randomized controlled trial. Arch Orthop Trauma Surg. 2022;142:281–289. PubMed.
